domingo, 31 de julho de 2011

Meu mundo é a vastidão dos céus!



Dentro de um âmago adormecido
Há uma chama que o tempo não apaga.
Dormem os apáticos lares
E eu me lanço sob as estrelas.
A noite não conhece a música
Dos meus sentidos indecifráveis.

Procuro cá uma memória,
Lá uma frouxa ventura.
Pois que cai a luz do alvedrio
E se deitam comigo as dores.

Não é esta vida senão reflexo da outra?
Que no futuro se assentam tijolos
Com a massa dos desgostos do presente.
E os sonhos a naufragar pelos mares
Formando a praia das desilusões
Demarcando o espírito com vãs cores.

Os amores, áridos que não vingam
São deserto das mágoas
Que da água não conhecem o frescor
Nem da alvorada o brilho.
A içar para sempre tão negro estandarte!

Lilian Gisele R. Fraga

segunda-feira, 2 de maio de 2011

A Fortaleza





Que pois a romper-me veio?
Graves sombras me cercam.
As lágrimas nos olhos prisioneiras.
Morre lentamente todo aquele que não ama.
Meus olhos o sabem,
Por que não libertam tais lágrimas?
A limpar-me de tantas mágoas.
E prisioneiro é também o coração
Que cativo do nada vive só.
Eu poderia escrever os mais belos versos
Porém em vão continuaria vivendo.
Enquanto as asas não se abrem
Um casulo é escuro e triste,
Assim um poeta é como mariposa
E o amor seu sopro de vida.
Minhas palavras nenhum sentido fazem
Senão quando em teus lábios
Mas com lábios tão cerrados
Negas luz à primavera e às flores
O toque das abelhas rejeitas.
Não posso amar-te de outra maneira,
Tal sentinela meu coração esconde.
Amo-te, como um farol na noite,
Isolado na vastidão do oceano
Que forças estranhas o movem.
Tamanhas dores também me fazem estranha.
E assim sou uma fortaleza de sal
Que de lágrimas foi construída.

Lilian Gisele R. Fraga

sexta-feira, 4 de março de 2011

Colore Dell'Anima



Na fervura ocasionada pelo lume
Arde minha paixão entristecida
Forjada em aço e azedume

Larguei-me nas veredas da vida.

Ó cara dor no peito! Cala-te,
Pois que as ervas servem de alimento

À carne que jaz esquecida na terra.

Não há reviro nem tormento,
Adormecem todos rumores de guerra.


Quão doentio é o corpo que carrega

Cá esta imagem fraca de poeta:

Vivo com o âmago vão...

No labor da morte que se cerra

Aos cantos de minha habitação.


Sou pr'o termo um riso aborrecido,

Pois me indaga e persegue.
Caia tu ó morte fria,
Diante desta alma que inda segue.


Meu verso é minha cura

E moléstia passageira,

É também ilusão pura!

Mas não cessa a aragem guerreira.

O sopro resiste brando,
Macilenta, ainda respiro.
Sou meio ledice, meio quebranto.
Vive e colore tudo o meu espírito.

Lilian Gisele R. Fraga



segunda-feira, 15 de novembro de 2010

A bailarina

Era uma caixa tão pequena

De vidro e ilusão.

Da caixa tudo se via nada se tocava

Apenas a música ressoava em baixo tom

A garota de porcelana brincava

Dançando uma valsa triste em vão.

Do canto empoeirado se contemplava

A dançarina da solidão.

Veio a serena primavera

E se foi ao chegar o verão,

Ainda permanecia intacta

A caixa, a valsa, a dançarina.

Largadas à vitrine esvaziada.

Passando numa tarde amena

Admirou-a um soldado.

Em sinfonia taciturna ela girava

Enquanto ele permanecia hipnotizado

Cortou-se em lágrimas...

Porquanto a beleza estava do outro lado,

Presa às cordas da melancolia.

Não suportou o olhar pesado

O encanto de dor que sofria

Conforme a música o perturbava.

Forjado a fogo e compaixão

Tomou um aço e o lançou

À vitrine da bailarina das ilusões

Inerme o vidro se quebrou,

Ela em pedaços, ele em rancor.

Acabou-se a dor, a valsa cessou.

Morta a boneca sorria

Porém a canção ainda baixa

Sussurrou:

Eras tu o martelo e eu a caixa.


Lilian Gisele R. Fraga

domingo, 23 de maio de 2010



Meu amor perdido ecoa
Em gemidos inexplicáveis.
Tenho asas que não voam
Tenho sentidos que não calam.
Minha voz é uma música
Que verte em lágrimas.
Enquanto vou sumindo na escuridão
Vejo o lampadário se quebrar
E o clarão cega, mas não queima.
Logo tudo é irreal.
Onde foram os pássaros,
Da breve e serena primavera?
Sou só um âmago perdido.
Como um faisão adormecido
De plumas encolhidas e peito vicerado.
Onde foi a beleza das eras,
O resurgir das auroras?
Meu amor é tão profundo,
De um pulsar infinito
É este meu coração quebrado.



Lilian Fraga


sábado, 17 de abril de 2010




Os políticos sabem que eu sou poetisa. E que o poeta enfrenta a morte quando vê seu povo oprimido.
Carolina Maria de Jesus

terça-feira, 26 de janeiro de 2010


Inércia

''Não posso ver nas linhas dos teus olhos

Nem sentir teus suaves movimentos

À luz da lua turva,

Não posso tocá-la.

És a alva e fina gota que despenca,

Caindo sobre mim, esvaindo-se

E eu não posso reter em mim.

Sei bem que não são lágrimas,

Pois por dentro estão interrompidas.

Deveras não são estas águas.

Como um vidro denso e negro contendo.

Separando os ventos...

Deixando as figuras distantes,

E seus rastros saudosos.

É esta noite infinda que atravessa dias

E os dias as noites.

Os céus choram, porém eu não ouço mais.

Nem o meu próprio choro.

Como o solitário pássaro perdido no verão

E os troncos secos de inverno...

Bramindo por luz e calor.

Vou caminhando o silêncio,

Abafando-me então.


Memórias desmancham-se vagarosas,

Varridas há tempos remotos,

E lá ficam a apodrecer.

Nas vielas esquecidas de minha mente cansada.

Onde estão as gotas luzentes da chuva gélida?

Que refresca o ser dormente. O ser dentro de mim.

Estes céus zombam com sua grandeza,

Suas colores formas cinzentas

E criaturas intocáveis. ’’